Whiplash
Se você tem medo da vinheta do Supercine, é porque ainda não conhece Terence Fletcher.
Juro que vou parar de rever filmes e que essa foi a última vez. Mas eu não estava planejando isso. Pela manhã, o algoritmo me mostrou um vídeo no qual algumas pessoas afirmavam sentir medo e angústia da música de abertura para o Supercine, programa da rede Globo que exibe filmes nas noites de sábado, desde 1981. Um ano depois, o compositor Roger Henri criou a identificação principal do programa: sua famosa vinheta. É curioso como, para mim, essa vinheta sempre pareceu sensual e elegante. Ela faz uma pergunta muito instigante, para então responder com tranquilidade. Visualmente falando, imagino uma mulher extremamente bonita, com um vestido que deixa suas costas nuas, e que levanta o olhar para a câmera, sendo o ponto de vista do telespectador. Ela leva um susto, com a “pergunta” — uma dúvida é levantada, junto com a sobrancelha esquerda. Mas enquanto a resposta surge, põe azeitona num drink que leva até o sofá, senta e liga a televisão. A vinheta do Supercine é um jazz que nunca me assustou, mas existe explicação para que cause essa sensação em algumas pessoas.
Se dividirmos a vinheta do Supercine em duas partes — a “pergunta” e a “resposta”, o que temos é o seguinte: um acorde dissonante (aquilo que parece estranho ao nosso ouvido), seguido de um acorde consonante, levemente dissonante, e novamente consonante no final. O acorde consonante é sempre harmonioso. Mas o primeiro acorde dissonante é também um trítono, historicamente conhecido como “o acorde do diabo”. O trítono é um intervalo musical que consiste em três tons inteiros entre duas notas. Quando o escutamos, sentimos tensão e instabilidade. Por conta dessa sensação negativa, impressão que a Igreja Católica não gostava de passar, reza a lenda que o trítono foi proibido na música sacra. A fama de “acorde do diabo” se perpetuou com o passar do tempo, pois hoje é muito comum encontrá-lo no heavy metal, por exemplo, ritmo que se apropriou muito bem da ideia.
Eu também não sabia que, de tanto cobrarem de Roger Henri a completude da vinheta, ele transformou a abertura do Supercine em uma música de fato completa (obrigada Nádia Diniz por ter me mostrado isso):
Um jazz leva a outro. Lembrei que semana passada, antes de adoecer pela segunda vez de COVID, passei uma noite muito bem acompanhada, que começou num jazz. Quando vi, estava com os fones de ouvido a caminho do trabalho com a trilha sonora de Whiplash, pensando que 2014 foi um bom ano para o cinema e gosto muito de contar essa história.
O ano, na verdade, era 2015. Véspera de mais uma edição do Oscar. Naquela época, eu estava casada, ia ao cinema todo final de semana e candidatos ao Oscar eram uma espécie de norte para o que deveria significar bom cinema. Em uma madrugada, assisti Whiplash, lançado no ano anterior. Fiquei tão extasiada que acordei meu então marido, dizendo: “você precisa ver esse filme”. Assisti pela segunda vez, com ele. Já era manhã. Dormi duas horas, tomei um banho e fui ao cinema Glauber Rocha assistir pela terceira vez. Eu precisava passar pela experiência de rever essa obra-prima no cinema, numa sala própria para um filme sobre música, com a acústica necessária — uma imersão. Resultado: participei de um bolão do Oscar e apostei em Whiplash quatro vezes (o filme concorreu em cinco categorias). Ganhei três. Duas foram pura “sorte”, porque montagem e mixagem de som são categorias técnicas e eu não sabia nada de técnica alguma. J.K. Simmons como ator coadjuvante não tinha dúvidas. Não se esperava muito de Whiplash, primeiro longa com alcance internacional de um diretor desconhecido, super jovem: Damien Chazelle. Não sei se Whiplash chegou a ser exibido no Supercine, mas deveria.
Sem mais rodeios, a história de Whiplash é a seguinte: Andrew Neiman (Miles Teller) está em seu primeiro ano no conservatório Shaffer, melhor escola de música dos Estados Unidos. Andrew tem apenas dezenove anos e o sonho de ser o melhor baterista de sua geração. Ele sabe as etapas que precisa alcançar para realizar-se profissionalmente e, uma delas, é fazer parte da orquestra principal do conservatório, aquela que participa de competições e é liderada por Terence Fletcher (J.K. Simmons). Fletcher não é um mestre fácil. É um sexagenário temperamental e impiedoso, do tipo que finge ser cativado, finge ser seu amigo, mas usa informações sensíveis e traumáticas contra seus alunos. Seu método de ensino é duvidoso, mas de alguma forma funciona. E, no que ele é temido, também é respeitado.
Não é em vão que um dos cartazes principais de Whiplash ilustre Andrew na ponta de uma baqueta, olhando para baixo. Sua trajetória se baseia em Fletcher testando seus limites com orientação abusiva, que vai desde ofender verbalmente a orquestra, até atirar uma cadeira na direção dos músicos. Andrew vai para sua primeira aula disposto e confiante, para logo ser traumatizado e viver em estado de alerta, pois “excelente” não é o bastante — ele precisa ser perfeito, nunca menos do que isso.
Fletcher, no mundo da moda, é Miranda Priestly em O diabo veste Prada. Na dança, é a voz interior e bipolar de Nina em Cisne negro, exigindo o seu melhor. Mas sua versão feminina certamente é Lydia Tár. O cinema, pelo menos o cinema atual, está repleto de personagens como Fletcher. E a vida real também. Pouca gente sabe, pois não costumo revelar, mas fui musicista durante três anos em minha adolescência. Fiz parte de uma filarmônica e eu era péssima. De todas as manifestações artísticas, penso que música é a que mais exige disciplina. E, independente do seu instrumento musical, você usa o corpo inteiro para se dedicar a isso. Whiplash evidencia o que digo cada vez que Andrew literalmente sangra em cima da bateria, visando alcançar o andamento que Fletcher deseja. Por sorte, não tive Fletcher entre meus professores na escola de música, mas não escapei do que ja mencionei em outra resenha: tive chefes tiranos, com síndrome de pequeno poder e egos gigantescos. Gosto que Fletcher seja visto como um filho da puta tal como seria se existisse fora da ficção. Pois, dentro dela, a maior parte das figuras parecidas com Fletcher são tratadas como “gênios”: Miranda Priestly e Lydia Tár são geniais e geniosas.
Sempre que revejo Whiplash, me reconheço em Nicole (Melissa Benoist), a namorada que convém para Andrew quando ele é aceito na orquestra, mas também desprezada por ele quando sente que precisa se dedicar mais. Ele prevê que Nicole o atrapalhará rumo a ideia de ser “o melhor baterista do mundo” e um dos motivos é que ela… não tem objetivos. Nicole entrou em uma faculdade qualquer apenas porque foi aceita, mas não escolheu uma especialização. Trabalha fazendo pipoca no cinema que Andrew frequenta com o pai. Andrew é, portanto, seu oposto. Na opinião dele, não deveriam namorar. Quando tenta retomar contato com Nicole, convidando-a para um evento de jazz, ela obviamente já está namorando com um rapaz que “não curte esse lance de jazz”. Como Andrew trata Nicole diz muito sobre ele. Diz muito sobre seu desprezo para com todos: os primos da família, destaques no futebol de suas universidades; o próprio pai, um professor abandonado pela esposa, que nunca pôde se realizar como escritor. Andrew não, ele é diferente — não tem amigos, mas está com a faca e o queijo na mão para fazer dar certo e tem todos os elementos para isso: ainda é jovem, está no melhor conservatório de música do país. O lugar certo, na hora certa. Ele acha.
O problema de Andrew está em se deixar levar pela arrogância a qual ele facilmente se adapta e absorve, vinda de Fletcher. Fletcher faz parecer, em alguns momentos, que Andrew é “o escolhido”, “o favorito”, mas ele está no mesmo barco de todos os outros: não há presença feminina na orquestra de Fletcher (que chega a testar uma aluna também do primeiro ano, acreditando que ela só está ali por ser bonita), e seus colegas recebem ofensas homofóbicas e gordofóbicas. Fletcher grita e cerca os membros da orquestra. É muito mais um perigoso jogo de manipulação psicológica. Fisicamente falando, o ator J.K. Simmons lembra meu pai e eu lembro de todas as brigas que eu e meu pai tivemos quando assisto essa atuação. Até mesmo o tom de voz é tão igual, que sinto a imposição do medo. E funciona. Nem mesmo quando Fletcher chora na frente dos alunos, ao reconhecer o talento de um ex-estudante que partiu tão jovem, nem mesmo aí é possível sentir empatia por Fletcher, ver o seu lado humano.
Quando Fletcher anuncia que é o fim da linha para Andrew, a presença de uma advogada, aliada ao discurso de seu pai, deixam claro que Andrew sofreu uma relação abusiva entre professor e aluno, na qual sua saúde mental foi quase deteriorada. E ele nem foi a primeira vítima. É chegada a hora em que Andrew desmonta sua bateria para adormecê-la no fundo do armário. Esses sentimentos de impotência e desistência são frequentes nos filmes de Chazelle — é comum que seus personagens abram mão de grandes sonhos por destinos implacáveis, pelo menos até receberem uma segunda chance.
A segunda chance de Andrew aparece quando, caminhando pela cidade numa noite qualquer, vê o cartaz de um bar de jazz, anunciando Terence Fletcher como convidado especial. Andrew entra, encontra Fletcher no piano acompanhado de uma banda e, quando a música termina e ele percebe que foi notado, tenta ir embora, mas Fletcher o chama para conversar.
Fletcher conta novamente para Andrew a história sobre como Charlie Parker se tornou Charlie Parker, ou simplesmente “bird”. Que, apesar de agora afastado do conservatório por denúncia externa, ele não se arrepende dos métodos que utilizou, na tentativa de encontrar o próximo Charlie Parker, mesmo que ele precisasse ser o Jo Jones que joga címbalo na cabeça de seus alunos, até fazê-los praticar incansavelmente. E com essa visão, que sempre encantou Andrew, Fletcher o convida para substituir o baterista de sua atual banda; justamente em uma apresentação na qual estarão presentes, na plateia, figuras que podem fazer crescer ou destruir carreiras. O repertório? O mesmo do conservatório, que Andrew conhece bem. O garoto tem todo o fim de semana para pensar, remontar a bateria e ensaiar o quanto puder.
E o filho da puta do Fletcher ataca novamente.
Antes da primeira música, com a banda inteira no palco, Fletcher deixa claro que sabe que foi Andrew o responsável por sua saída do conservatório Shaffer. E, não bastasse essa revelação tão fora de hora, a primeira música que a banda apresenta é totalmente desconhecida para Andrew, forçado a agir no constrangimento do improviso. Quando a música acaba, Fletcher retorna para Andrew, incentivando-o a desistir. Andrew levanta, caminha na direção da porta de saída do palco. Seu pai, até então na plateia, encontra o filho. Eles se abraçam e era desse incentivo que Andrew precisava para voltar ao palco, sentar diante da bateria e começar a tocar “Caravan”, sem esperar a regência de Fletcher, avisando para o violoncelista ao lado quando começar, no que toda a banda acompanha, deixando Fletcher incrédulo. Quando a música termina, Andrew continua em um solo improvisado, para desespero de seu maestro e mentor. E tudo aqui é mais do que música: são expressões, suor, sangue e gestos de Andrew para Fletcher e Fletcher para Andrew; a sintonia completa entre Miles Teller, J.K. Simmons e a direção de Chazelle. O subtítulo de Whiplash no Brasil é “em busca da perfeição”. Essa perfeição Chazelle alcança em um dos melhores finais do cinema, para um dos melhores filmes já feitos. Chazelle nos entrega de bandeja a lição de que “remédio para maluco é um maluco e meio”, pois a coragem de Andrew é sua resposta para Fletcher, também quando eles finalmente acertam suas diferenças.
Whiplash está disponível no catálogo da Max/HBO, não deixe de ver.




